TERRA

FOGO

ÁGUA

AR

Escritos, pensamentos e exercícios no curso

EAV Parque Lage | Terra, Fogo, Água e Ar 

com o curador Ulisses Carrilho, julho de 2020.

mini-DV, imagens de arquivo

39''

Instigado a pensar sobre tempo, eternidade, infinito, espiral e linha, algumas imagens e associações povoaram a minha cabeça durante essas quatro aulas online organizadas pelo Parque Lage e ministradas pelo querido Ulisses Carrilho.

 

A mestra a seguir foi a pesquisadora, curadora e crítica norte-americana Lucy Lippard (1937), cujo livro Overlay serviu de base e inspirou os pontos disparadores organizados pelo Ulisses para nos apresentar e propor imagens, trabalhos e exercícios questionadores do belo, do autoral, do mitológico.

Era importante referendar em nossas proposições artísticas (sejam elas por vezes meras especulações e digressões) novos caminhos de percurso que, acima de tudo, nos tirassem da zona de conforto e nos fizessem ressignificar a nossa posição no mundo através do transformador poder da arte e da subjetividade potente compartilhada e coletiva.

O vídeo acima é a minha resposta ao exercício proposto pelo Ulisses:

 

I - O Infinito e a Eternidade

"Uma imagem (foto) do infinito na palma de sua mão.

Imagem em movimento (vídeo) da eternidade num minuto.

 

Ver um Mundo num Grão de Areia

E um Céu numa Flor silvestre,

Ter o Infinito na palma da sua mão

E a Eternidade numa hora.

(William Blake)

 

Uma foto e um vídeo de até um minuto.

PS: pensei esse exercício a partir de Moisés Patricio"

No seu poema Eternité (traduzido em português pelo Ivo Barroso), Rimbaud exprime a eternidade em uma estrofe já clássica na poesia rimbaudiana em que o mar e o pôr-do-sol se mesclam evasivos, incontornáveis, eternos. "Achada, é verdade? / Quem? A Eternidade. / É o mar que se evade. / Com o sol à tarde." 

E continua "Alma sentinela / Murmura teu rogo / De noite tão nula / E um dia de fogo (...) A humanos sufrágios, / E impulsos comuns / Que então te avantajes / E voes segundo..." 

A natureza indomável da estrofe de Rimbaud é a mesma natureza que observo nesse vídeo. O trabalho é composto por imagens de arquivos antigos, de mais de dez anos, gravadas em uma mini-DV. O vídeo mostra o jardim da minha infância, no sítio da minha avó Zulmira em Birigui, no interior de São Paulo, em uma profusão de movimentos, cores, intensidades e personagens que estão ou em catarse, ou em dissolução.

A imagem de abertura em uma crescente, espiralado o voo em vórtice, me fez lembrar uma nota de rodapé no livro Por que calar nossos amores? Poesia homoerótica latina: os gregos antigos faziam previsões observando o voo dos pássaros.

A abertura desse vídeo é, portanto, um prólogo catastrófico.

Das minhas anotações durante a fala do Ulisses,

natureza indomável marcada por pulsões,

desejos que não se dobram,

natureza / fragmento <- arte como uma compreensão ou apreensão desse fragmento

"eu no rio"

N​ão se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Heráclito

fotografia digital 

Para entregar a segunda parte do mesmo exercício, - sob a inspiração e a licença do artista Moisés Patricio - carrego o meu infinito na mão, o Allisson, o carinha que conheci e não existe mais é, para mim, a eternidade. 

Bem como a frase do Heráclito instaura, a mudança é a condição da eternidade, da repetição. Pousam em nossas mãos só os fragmentos, o souvenir, o bilhete, a cédula: as experiências fluem como as águas.

Quando estava pensando nessa foto, me deparei com um trecho de O Aleph anotado em um dos meus cadernos. De súbito, me pareceu revelador, claro e misterioso - como tudo em Borges - forte, forte, forte:

 

"notei que os porta-cartazes de ferro da praça Constitución tinham renovado não sei que anúncio de cigarros; o fato me tocou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que aquela mudança era a primeira de uma série infinita." (p. 136)

Francisco no Jardín Botánico, 2010

Fotografia analógica, 120mm

Nahuel no Jardín Botánico, 2013

Fotografia analógica, 35mm

Espectros de um jardim botânico.

Ele continua lá; suas porções de terra, os troncos de suas árvores e, com sorte, os gradeados que o margeiam.

Eu posso voltar ao mesmo lugar para render as homenagens.

Ele será sempre, para mim, um imantado lugar.

II - 

"Folha 1:

– "O que é o tempo?"

Em uma folha, apresentarmos a energia/força do tempo

Folha 2:

– "Como percebo o tempo?"

Em outra das folhas, apresentaremos nossa percepções sobre a sua passagem.

 

No complexo fluxo entre Eu, o Outro, o Todo, o Impossível, construiremos duas imagens.

Se no último exercício buscamos nos liberar da ideia de Belo, nosso desafio é compreender como cada um percebe o tempo e, sobretudo, o traduz. Menos como uma narrativa particular. Uma pergunta que nos interessará, como hipótese, é a seguinte: O que se passa pelo meu corpo, numa experiência individual, que me une a uma condição comum e partilhada?

 

Ainda subverteremos a ideia de traço e a sua forma – como a linha e o traço são matrizes importantes para o desenho e a escrita, tentaremos mais uma vez ultrapassá-los. Substituímos, no último exercício, o bastão de grafite por carvão, giz de quadro, giz de cera, caneta bic, excremento, tinta, massa de modelar, argila, terra, fogo, água, pedra, ar ou qualquer outro material ou objeto com que pretendêssemos marcar a superfície do papel. Proponho que prossigam com este material – seja ele qual for." 

Grafite, borra de café, esperma e perfume borrifado sobre papel

Páprica e fragmento de papel sobre fita adesiva

Esse exercício do meio (já que comecei a expor os trabalhos e as consignas de trás para frente, do fim para o começo) é a continuidade do primeiro: devemos trabalhar com os mesmos materiais do exercício anterior (ou posterior, no scroll da página) traduzindo o tempo e a percepção dele.

 

A primeira imagem é o verso da intenção de um desenho - e que acabou virando verso do desenho não intencional. Nele, usei grafite, borra de café, esperma e um adocicado perfume borrifado sobre o papel. As manchas que foram se formando imediatamente pela espessura do esperma e pela oleosidade do perfume criaram um desenho delimitado por ilhas e continentes como se fluidos e pulsões estivessem delineando um mapa, um trajeto, uma possibilidade de espaço com suas topografias, litorais e mares

(o mar seria a ausência da matéria? A água que tudo carrega e que tudo com o tempo dissolve).

 

Esse é o desenho de como percebo o tempo.

O tempo como travessia. Eu e meu corpo ampliamos a fronteira da experiência subjetiva, uníssona. Meus fluidos-travessias criam os rastros desse percorrer o mundo (e expandir os limites físicos, culturais, políticos). Esse desenho é a vontade de um corpo-continente expresso no tempo como o ultrapassar da fronteira.

Devo percorrer todas as terras e beber todas as águas, 

só assim terei sido eu, vivo.

Já no desenho da páprica, os fragmentos de uma fita adesiva repousadas sobre a mesa da sala, cheias de páprica e alguns resquícios do papel branco constroem o tempo para mim: fragmento, reminiscências e marcações. O que esteve ali.

Do Barthes, me lembrei, ainda que vagamente, de uma imagem que ele incluiu no seu A Câmara Clara, a fotografia de um prisioneiro no fim do século XIX condenado à morte. Parafraseando de cabeça, me permitam, a potência desse olhar, dessa foto vista hoje é que ele - o prisioneiro - não está mais lá, ele já morreu, e nessa captura está à mercê da iminência do morrer.

"Em 1865, o jovem Lewis Payne tentou assassinar o secretário americano, W. H. Seward. Alexander Gardner fotografou-o em sua cela; ele espera seu enforcamento. A foto é bela, o jovem também: trata-se do studium. Mas o punctum é: ele vai morrer. Leio ao mesmo tempo: isso será e isso foi; observo com horror um futuro anterior cuja aposta é a morte. Ao me dar o passado absoluto da pose, a fotografia me diz a morte no futuro … qualquer fotografia é essa catástrofe." (p. 141-43).

 

Lewis Payne por Alexander Gardner, 1865

A fotografia do desenho, ou o desenho somente, é aquilo que estava lá, o seu completo representado pelo seu fragmento, e já se desvaneceu como o pó carregado pelo vento e os resquícios de pó que ficaram caídos na sala. 

 

Outra referência textual, essa não me sai da cabeça. A minha colega e poeta Yasmin Bidim me apresentou este poema da

Ana Maria Martins:

"Há estes dias em que pressentimos na casa
a ruína da casa
e no corpo
a morte do corpo
e no amor
o fim do amor
estes dias
em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo
e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde
não são coisas que se expliquem
apenas são dias em que de repente sabemos
o que sempre soubemos e todos sabem
que a madeira é apenas o que vem logo antes
da cinza
e por mais vidas que tenha
cada gato
é o cadáver de um gato" 

cada gato / é o cadáver de um gato.

III - Linha e Espiral - um exercício em papel

"A linha e a espiral são dois modelos possíveis para uma ideia ocidental de história.

Proponho que experimentemos uma reação a esses modelos.

 

Material:

duas folhas A4 (não precisam ser virgens) e lápis

uma deve ser dedicada à linha, outra à espiral

 

Em uma folha, apresentarmos a energia/temporalidade da linha.

Em outra das folhas, apresentaremos nossa interpretação da energia/temporalidade da espiral.

 

Convido a todes para, com papel e lápis, subverter a ideia de traço e a sua forma. A linha e o traço são matrizes importantes para o desenho e a escrita. Tentaremos ultrapassá-los. Substitua o bastão de grafite por carvão, giz de quadro, giz de cera, caneta bic, excremento, tinta, massa de modelar, argila, terra, fogo, água, pedra, ar ou qualquer outro material ou objeto com que pretenda marcar a superfície do papel.

 

Sugiro uma tentativa [utópica] liberação da ideia de Belo, da originalidade, da eficiência ou da produtividade. Pensar com as coisas nas mãos. Senti-las em contato com o corpo e em fricção com a superfície do papel e da sua transformação. Compreender o que pode sair dali a partir da gestualidade guiada por esta intenção."

Páprica sobre papel

Grafite, borra de café, esperma e perfume borrifado sobre papel

Aqui, a proposição da linha e espiral / a vertigem.

No primeiro, o papel serve como contêiner e induz um caminho de terra avermelhada, educada pelas bordas desse papel, ribanceira. A páprica se comporta como (fragmento de) terra que delimita um percurso (ou uma história) e essa linha apresenta um trajeto. 

A retidão, contudo, não apresenta as ramificações desse percurso, os atalhos, os desvios, as outras possibilidades narrativas.

E por isso eu falhei.

Já no segundo, a vertigem não está literal, ela é a mistura dos materiais que vêm do meu corpo e se mesclam aos materiais da terra (café, grafite), fixados pelo borrifar do perfume: sinestesia louca, vertiginosa; o meu fluido do esperma distorce as formas claras e objetivas: é a pulsão do desejo - parafraseando o Ulisses.

É a escrita de um desejo destrutivo, parafraseando o Ulisses de novo.

O trabalho estará pronto quando as formas e as forças na superfície se estabilizarem. 

O olhar atento do artista concede esse estabilizar:

Quando vi essa mancha central marrom me lembrei imediatamente dos desenhos rupestres vistos em aula e pensei: o que sobra do meu corpo é a minha ancestralidade. E as tentativas de olhar pra essa forma e reconhecer uma imagem primeira, breve, uma mariposa, uma baleia, uma figura monstruosa mesclada de um pássaro com um cão, ou uma baleia-cachorro com cauda e com patas. Eu não sei e, portanto, fui bem sucedido na dúvida.

Serra da Capivara. Foto de Lucas Gonçalves

 Agradeço imensamente a Ulisses Carrilho pelas aberturas e pela interlocução generosa. Aos colegas de classe, cujos trabalhos e falas me fizeram inquieto.