Projeto em processo [Work in progress]

 

 

prosador do diamante/rimb, 2019

colagem

80 x 150 cm

​"abracadabrantescos. Igualmente forjada por ele (Rimbaud), tem aqui significado especial: S Briet relata que Rimbaud quando menino introduziu em sua gramática escolar um marca-páginas de papel recoberto pelo triângulo mágico, nele escrevendo 'para proteger da febre'. Os fluxos abracadabrantescos seriam, no caso, exorcismos de purificação"Ivo Barro 

 

visitei Rimbaud no começo de dezembro de 2018, em uma viagem de trem de Brescia a Paris com uma parada na cidade antes de me dirigir a Ardennes. Meio aos protestos do gilet jaunes, meu hotelzinho bem perto da Bastille fedia a fumaça. Rumei em um domingo a Charlesville sem saber o que iria encontrar. Uma chuva fina e poucos passos a pé da estação cruzando a praça já me faziam avistar o Hôtel de Paris do outro lado. Logo na entrada, um busto de Rimbaud em gesso, em branco, muito mais alto do que se esperaria.

Rascunhei alguns versos do quarto na madrugada do hotel.

lapidário rimbaud filho primitivo do sol

Vejo a sua cidade coberta de breu
importo o breu das quinas da ponte,
o meio-fio irresoluto ao meio-dia do escuro,
escuto a ponte.
Chego ao amanhecer de Charleville-Mézières com chocolate dark no bolso,

                                                                          
temo a minha saúde literária, mas estou no ápice dos sonhos.

torço, retorço a palavra e te reforço,
amante do meu escuro, 
espécie de meneliks em juta,
te escrevo em nome à grave
repousa o teu corpo no mausoléu da minha cabeça,
honrarias, caravanas, pernoites largas
tua calça ou tua bermuda. 

Vejo a sua tumba,
olho as grades, vigio a terra.
Meu corpo estátua no Hôtel de Paris cabe no seu corpo estátua
pereço em frente a tua fonte,
cheio de mim, cheio de ti,
à tua natureza, rendo e ouço.