O Maravilhamento das Coisas

Curadoria de Julie Dumont - The Bridge Project

 

O Maravilhamento das Coisas parte do desejo de mostrar a produção de artistas de países e gerações diferentes que atuam além das categorias para refletir sobre os desdobramentos da estética do cotidiano na arte contemporânea, borrando os limites entre arte erudita e popular, figuração e abstração, o original e a cópia.

O uso da cópia, está no cerne do Projecto Bambaismo, de Daniel Barclay. A origem colonial da palavra Bamba descreve a ação de vedação de moedas existentes, redefinindo o valor do objeto original e designando, no Peru atual, as cópias clandestinas de imagens e objetos. Transpondo a prática para o domínio da arte, Daniel Barclay questiona o valor da obra, reproduzindo de forma voluntariamente imperfeita, cópias de esculturas antigas e pinturas famosas. Neste exercício formal, os códigos intrínsecos da obra permanecem, porém alterados à medida das novas leituras.

A mesma busca formal caracteriza as obras de Mayla Goerisch, Mano Penalva, Sergio Pinzón e Matheus Chiaratti. Desviando as qualidades físicas de objetos comuns, eles os transformam em esculturas ou pinturas, derrubando as estruturas clássicas da arte e buscando o acabamento na composição e na cor através de uma iconografia inspirada de memórias ou lugares pessoais. Assim, as sacolas de lona ou espreguiçadeiras de Mano Penalva recebem novos volumes e funções, enquanto Mayla Goerisch cria com Meeting Points, totens a partir de empilhamentos de baldes coloridos. Sergio Pinzón, na suas Variaciones sobre una polo, parte das listras de uma camiseta na tentativa de representação da paisagem e, por sua vez, Matheus Chiaratti sobrepõe nuances de peças de seda numa “quase pintura” imersiva, desdobrada em escultura de madeira, reinventando cores da natureza. 

É a dimensão mística da natureza que está no centro das obras de Mariano Barone, Bruno Brito e Martin Lanezan, cujas pinturas adornadas de objetos estão carregadas de simbologia popular e parecem reunir as energias do mundo. A Coluna de Bruno Brito, constituída de concreto e madeira, evoca um axis mundis ligando o humano ao universo, celebrando a engenhosidade e o imaginário vernacular. Quanto ao Mariano Barone, mesmo dialogando com as camadas de informações que se encontram nas paredes da cidade, ele resgata em Zombies are good for your health, o espírito da natureza, em uma composição de lonas e desenho de inspiração rupestre.

Finalmente, Tatiana Dalla Bona e Leda Catunda traduzem a saturação visual contemporânea; Tatiana Dalla Bona revela nas suas assemblagens uma cidade onde a poesia se esconde atrás dos tapumes coloridos e dos véus de prédios em obras, enquanto Leda Catunda, com a “quase escultura” Bípede, observa a macroeconomia do universo do esporte. Nela, células articuladas organicamente, alternam logos da NBA e estampas tradicionais, formando um bicho exótico cujas pernas se expandem no chão e cuja pele contrastada remete de um lado, ao universo feminino - da sua “estética da maciez” - e de outro, a brutalidade da identificação imprescindível a um grupo e do luxuoso universo do esporte profissional.

O Maravilhamento das Coisas contempla assim, as estratégias de apropriação de referências pessoais ou populares pela lente subjetiva e afetiva dos artistas, projetando formas simbólicas para ou além da parede. Ao criar novas funções e significados, transpondo lugares conhecidos para o lugar da arte, a coletiva traz à tona o deslocamento operado pelo artista, aplicando o paradigma da arte contemporânea na sua relação mais íntima com o público. Neste jogo de possibilidades, de expansão e permeabilidade dos conceitos da obra de arte, beleza e finitude, estética formal ou informal, somos convidados a uma jornada empática no universo particular desses artistas, no campo lúdico da arte, do maravilhamento das coisas.

 

 

ARTISTAS PARTICIPANTES

Bruno Brito ~Daniel Barclay ~Mariano Barone ~Leda Catunda ~Matheus Chiaratti

Tatiana Dalla Bona ~Mayla Goerisch ~Martin Lanezan ~Mano Penalva ~Sergio Pinzón