O CAMINHO DA ESTRADA REAL - Nathalia Lavigne 

 

Did we ever arrive at our destination? Or did the trip continue to run into our lives as we returned to the big city?

 

O propósito parecia desde o início uma ideia essencialmente romântica: um artista americano e um brasileiro partem de Nova York e de São Paulo para uma residência itinerante pelas cidades da Estrada Real de Minas Gerais. Ao estilo das expedições feitas por viajantes europeus no século XIX, imaginam uma natureza ao mesmo tempo temerosa e acolhedora, entre o sublime e pitoresco. Carregam telas, pinceis e tinta a óleo no porta-malas de um 4x4; montam cavalete e mesa de trabalho em quartos de hotéis, um deles com vista para os 12 apóstolos de Aleijadinho, em Congonhas do Campo. Não era exatamente um ateliê en plein air, mas era quase.

 

Ou, neste caso, era até melhor: o barroco mineiro foi o ponto de partida e o interesse em comum entre os dois jovens artistas, Matheus Chiaratti e Daniel DiFerdinando. Pintar com os olhos pregados para as esculturas em pedra-sabão de Aleijadinho talvez fosse a experiência máxima na busca por aquele imaginário ali tão bem representado. Mas essa não era uma viagem com propósitos definidos além de uma vaga ideia do que se estava a buscar. “Será que realmente chegamos em nosso destino? Ou a viagem continuou a acontecer em nossas vidas quando voltamos para a cidade grande?”, escreve Dan alguns dias após chegar em São Paulo.

 

Para ele, que visitava o país pela primeira vez, a experiência era ainda mais intensa e quase sempre sinestésica. Palavras de um novo vocabulário que depois se tornariam elementos visuais na composição de algumas pinturas; histórias não compreendidas por meio da linguagem eram acessadas por sua sonoridade ou leitura labial. Talvez pela barreira da língua, seu interesse pela paisagem local foi aos poucos ganhando mais força. Na tentativa de mapear aquela natureza desconhecida, há desde flores colocadas sob um desenho de grid ou imagens cartográficas do caminho do ouro. Em outro conjunto, a representação é o oposto dessa racionalidade: a montanha ganha o formato de uma pirâmide dourada em traços que se aproximam de um desenho primitivo e formas quase psicodélicas.  

 

Já nas pinturas de Matheus, que partem de um outro vocabulário e paleta de cores, uma exposição sobre Alberto da Veiga Guignard vista em Ouro Preto pode ter deixado uma certa influência nas imagens de uma paisagem verticalizada, quase sem perspectiva. O interesse por objetos de uma cultura popular local – que por muito tempo ficou relegada a classificações menores, na esfera do artesanato – foi também contaminando os dois artistas. Trabalhos feitos em pedaços de madeira encontrados ao longo da viagem aparecem como resultado desse diálogo, criando um ponto de contato entre duas produções tão distintas. 

 

Mas construção de um imaginário local vai muito além do que foi lá foi visto. As histórias e lendas sobre a magia do rio das Mortes e da guerra dos Emboabas, do Capão da Traição ou da derrama que resultou na Inconfidência, tudo isso ainda vai permanecer na viagem que certamente continua quando se chega ao destino de volta.

Texto da exposição homônima no Breu, São Paulo ~ 06 de setembro a 07 de outubro de 2017.

MATHEUS CHIARATTI

O Rio das Mortes, 2017

Óleo sobre madeira [Oil on wood]

18 x 27 cm

 

MATHEUS CHIARATTI

Ouro Preto para Guignard e Belizário, 2017

Óleo sobre tela [Oil on canvas]

30 x 24 cm

 

Os doze profetas de Aleijadinho, Congonhas, MG​

foto do artista