MINHA CIDADE pp. 253-257 | CLICK HERE FOR ENGLISH

     Apequenado na pastagem com um livro na mão. Aquela paisagem rala, rasteirinha.

O sol ao se pôr mergulha no horizonte de asfalto enquanto pendo a minha cabeça na poltrona do ônibus. Chego com as pernas dobradas, o cabelo amassado, pálpebras macientas e pesadas, bochechas marcadas de linhas do grosso pano de repousar a cabeça e o estômago vazio só com um suco de laranja. Anoiteceu já há quatro horas e ainda estou distante trinta minutos.

 

     Apareço à minha cidade pela janela da madrugada, a rotatória da entrada dá boas-vindas em círculos, o poste ilumina pontilhado a noite em alvura com o véu do calor, mal se vê a lua grande. Todos escurecem inclusive a minha cabeça. Sonolento vejo imagens que não decifro e as linhas do livro se horizontalizam.

 

     Um homem carregando um lampião, descamisado, em volta de uma fila de lenhas posicionadas para armar algum barracão. Esse mesmo homem sobe às lenhas e caminha em risco, sem camisa cingido pelo pôr-do-sol distante, coberto por alguma das montanhas de Minas. Eucaliptos incendeiam em nuvens invisíveis o ocre mentolado da passagem; naturalmente molhada a grama se mistura como silo a esse cheiro incendiador. Ele sem camisa é benzido pelas noites das montanhas, seu peito faz um vulto que é em si uma delas. Pelinhos enroscados na mesma auréola, algumas pintas preementes e a pele condecora os ossos da sua costela. O outro homem lhe observa o caminhar enquanto tem ao alcance das mãos um cajado de madeira lustrado, encerado, cabeçudo.

 

     A cadela dorme no chão molhado da sombra.

     Cheguei ao super anoitecer da cidade e já desperto às sete e tanto para ir ao sítio: dirijo nesse amanhecer de cujas estradas esburacadas de luz, planas, elas me levam ao longe. Passo o caminho da entrada para me perder um pouco mais até acabar a música, fumaças de mosquitos todos juntos iluminados pela luz intermitente, rastro de folhas pequenas de uma mesma árvore correndo na estrada em um tufo de vento parecem pintinhos todos juntos corridos, alternam sombra e sol, mato e asfalto.

Volteio depois de encontrar uma rotatória que me levaria ao Taquari. Chego ao sítio não mais distante das dez.

 

     Apararam o jardim ou tiraram o jardim.

     Não se tem mais as espadas de São Jorge entulhadas de abrigo a muitas teias, com muitos verdes.

 

     As migalhas esturricadas no asfalto à esquerda formam uma constelação luminosa em oposição ao cinza. São essas as migalhas de pão arremessadas para que comam os pássaros (um de cabeça vermelha como o fogo).

     Chega o cão da vizinha e rodeia os pontinhos de sal, lambe-os e não deixa nada.

Um ramalhete de jasmim que colhi do pézinho trouxe-me ao copo um besouro pequeno, cor siena. Enrosca nas pétalas brancas do jasmim dando voltas sobre ela mesma. Patina despendendo as antenas e rasgando a seda das pétalas graciosamente sem se dar conta de estar em um copo d’água. Atiçado pelo cheiro ou cego de fome? Suas patas traseiras se seguram nos pontos mais altos da flor, as dianteiras vão tateando a seda enquanto seus dentes mastigam. Imagino, trouxe-o de tão longe, escondido, deve ter deixado para lá os seus pares sem que ainda se dê conta. Ele é agora um exilado, seu ramalhete, a sua distância, eu apenas o observo como um escritor de longe. Não me perceberá?

     Seus olhos esturricados agora me veem, está estático feito uma pedra de sal.

 

     Desce a tarde solene em volta de fogo. Torres graves na sebe.

 

     Ele não estende a sua caminhada. As lenhas molhadas apodrecem todos os dias.

 

     Seu anoitecer é o repouso dos seus vales sobre as montanhas do seu colchão, ainda que observado pelos olhos do homem do cajado. Noutro espaço, os pássaros temem o aprisionamento e beliscam o pão em velocidade abrupta. Durmo a cabeça sobre o sofá de veludo cotelê enquanto rastelam a grama da entrada, o nó acinzentado da grama morta em um bolo de feno, cobrir-lhe as roseiras ao pé para servir de húmus.

     Algum gato reclama ao fundo e ao longe, depois de correr para a copa da árvore. Sinto estar suscetível à mudança dos ventos, meu humor se desfaz de leve e quando tenho notícias deles dois me esvazia a felicidade. Tenho tentado não me lembrar, ainda agora que estão plenos de felicidade e contentamento. As notícias, no entanto, pululam.

 

     No último dia 5 completou-se um ano desde que esvaziamos as nossas esperanças. Ensaiei algumas palavras que não consegui escrever em sua totalidade, as sentenças truncaram, as vírgulas recheadas de muito nó e bobagem. Escrever ao silêncio e convidá-lo ao silêncio, restado, fechado, convicto. As palavras viraram um novelo e da minha garganta saiu o seco nu silencioso suspiro.

 

     Um pássaro pousa dentro de uma bacia. As asas alternadas se despendem.

     O pássaro não consegue sair.

Budu é o projeto de um livro de capítulos curtos e cenas fragmentárias, de um eu-lírico em primeira pessoa que transita em um cenário memorial,

homo-afetivo e multifacetado em uma São Paulo atual.

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Budu is a book project with short chapters and fragmentary scenes, written from the perspective of a first-person lyrical self that travels through a homosexual and multifaceted memorial scene in contemporary São Paulo.